
Poucos personagens foram tão determinantes para a história recente do Palmeiras quanto Abel Ferreira. O técnico português empilhou títulos, consolidou uma era vencedora e elevou o patamar competitivo do clube dentro e fora do Brasil. Ainda assim, o futebol — implacável como sempre — voltou a colocar seu nome no centro das discussões entre torcedores, conselheiros e bastidores do clube. O debate não é mais sobre o que Abel fez, mas sobre até quando o modelo atual seguirá funcionando.
Nas redes sociais, em programas esportivos e nos arredores do Allianz Parque, o tema é recorrente: o trabalho ainda sustenta o nível de cobrança que o Palmeiras exige? Parte da torcida segue fechada com o treinador, apoiada no histórico vencedor. Outra parcela, cada vez mais vocal, demonstra incômodo com escolhas táticas, leituras de jogo e a sensação de que o time entrou em um ciclo de repetição, previsível para adversários e pouco ousado em momentos decisivos.
Esse tipo de divisão não é novidade no futebol brasileiro, mas ganha contornos mais sensíveis quando envolve um treinador tão identificado com o clube. Abel deixou de ser apenas um técnico para se tornar símbolo de um projeto. Questioná-lo, portanto, não é simples — e tampouco raso.
O momento atual é de desgaste visível. Não apenas nos resultados, mas no ambiente. Coletivas mais tensas, reações à beira do campo e um discurso cada vez mais defensivo indicam que a relação entre expectativas externas e realidade interna passa por um teste importante. O Palmeiras segue competitivo, mas já não transmite a mesma sensação de controle absoluto que marcou os anos mais vitoriosos.
A pergunta que ronda a torcida não é se Abel é competente — isso está fora de discussão —, mas se o ciclo precisa de ajustes profundos para não entrar em declínio silencioso.
Entre a era vencedora e os sinais de desgaste, o peso da repetição começa a aparecer

Todo ciclo vitorioso carrega, inevitavelmente, o risco da acomodação. No caso do Palmeiras, a manutenção de uma base forte, aliada à confiança quase inabalável em determinados conceitos de jogo, trouxe estabilidade, mas também criou padrões facilmente identificáveis pelos adversários.
O time de Abel sempre se destacou pela competitividade, pela força defensiva e pela leitura estratégica dos jogos grandes. No entanto, nos últimos tempos, a dificuldade em propor partidas, furar defesas fechadas e reagir rapidamente a cenários adversos passou a incomodar. O Palmeiras, em vários jogos, parece depender mais do erro do rival do que da própria criatividade.
Esse cenário remete a momentos do passado recente do clube. Técnicos que fizeram história também enfrentaram fases semelhantes, em que o legado pesava tanto quanto os resultados do presente. Em alguns casos, a insistência em fórmulas conhecidas acabou acelerando o desgaste. Em outros, ajustes pontuais foram suficientes para renovar o fôlego do trabalho.
O ponto sensível é que o Palmeiras atual convive com um elenco que mudou menos do que o contexto competitivo ao redor. Rivais se reinventaram, o mercado ficou mais agressivo e o nível de exigência aumentou. Manter a mesma lógica por muito tempo pode gerar a falsa sensação de segurança, enquanto o futebol segue avançando.
A torcida, que já viveu ciclos abruptamente interrompidos no passado, teme repetir erros históricos. Por isso, o debate não surge apenas da impaciência, mas do receio de que a diretoria demore a agir caso sinais claros de queda se intensifiquem. Ao mesmo tempo, há quem veja na pressão exagerada um risco ainda maior: o de quebrar um projeto sólido por ansiedade.
Abel, por sua vez, parece ciente desse dilema. Seu discurso frequentemente reforça o contexto, o calendário, as limitações do elenco e a necessidade de proteger o grupo. Para parte dos torcedores, isso soa como lucidez. Para outros, como justificativa excessiva. O equilíbrio entre explicação e autocrítica é fino — e decisivo para manter o respaldo popular.
O futuro de Abel e o dilema do Palmeiras entre continuidade e renovação

O que vem pela frente é o que realmente preocupa. O Palmeiras terá decisões importantes pela temporada, e cada resultado tende a ampliar ou reduzir o tom das discussões. Uma sequência positiva pode silenciar críticas momentaneamente. Já tropeços em jogos grandes reacendem, de forma quase automática, a pauta sobre o futuro do treinador.
Internamente, o clube vive um dilema estratégico. Abel representa estabilidade, identidade e credibilidade internacional. Romper com isso não é simples nem barato. Ao mesmo tempo, a diretoria sabe que ciclos não são eternos e que a leitura do “tempo certo” costuma separar gestões bem-sucedidas das que insistem além do limite.
O futebol brasileiro oferece exemplos claros dos dois caminhos. Há clubes que trocaram treinadores vencedores tarde demais e pagaram o preço com temporadas apagadas. Outros mudaram cedo demais e passaram anos tentando reconstruir o que foi perdido. O Palmeiras tenta, agora, aprender com ambos os extremos.
Para o torcedor, o desejo é menos político e mais emocional: ver um time que volte a empolgar, que imponha respeito não apenas pelo histórico, mas pelo futebol apresentado. Se isso virá com Abel ajustando ideias, mudando peças e reinventando o próprio modelo, ou com uma mudança mais drástica no futuro, ainda é cedo para cravar.
O que está claro é que o debate deixou de ser marginal. Ele entrou no centro da conversa palmeirense porque toca em algo profundo: a identidade recente do clube. Questionar Abel é, em certa medida, questionar o próprio projeto que transformou o Palmeiras em potência continental.
O próximo capítulo será escrito dentro de campo, como sempre. Mas, fora dele, a torcida já deixou claro que acompanha cada passo com atenção redobrada. Não por ingratidão, mas porque entende que, no futebol, respeitar a história não significa ignorar o presente.
E o presente do Palmeiras, hoje, pede reflexão, ajustes e, acima de tudo, decisões que estejam à altura de um clube que aprendeu a vencer — e agora precisa aprender a se renovar sem se perder.